A conta
Psicanálise selvagem e de botequim, um conto
Porque não há quem não saiba que estar numa mesa de bar sem companhia, mesmo não querendo companhia, tem o poder de aguçar a audição. Claro que nem sempre precisa ter ouvidos de tuberculoso. O volume dos conversadores nas mesas ao redor, aquelas com pelo menos três pessoas animadas por estar num bar, tende a ser tão elevado que alguma história vai chegar até você, mesmo contra a sua vontade. Mas hoje não, contra a minha vontade não. Desta vez quem buscou o furdunço fui eu.
“Eu amo ele!”, ouvi bem. “Sei que é histeria minha, que é a porra do amor transferencial, que sou todos os clichês da psicanálise, da gestalt-terapia, das terapias corporais [piscando um olho e rindo dessa, aposto] e até da cognitivo-comportamental juntos, mas, caralho, ele é um gostoso!”, disse o garotão. Garotão com “estudante de psicologia!” escrito na testa assim, com ponto de exclamação, que pronunciou tudo com voz esganiçada e, acredite, mesmo de costas pra mim deu pra ver sua bocona gritar. E ele disse aquilo tudo pra amiga espantada, de um espanto maior do que a cara dos outros dois que dividiam a mesma mesa e tentavam, porcamente, disfarçar a vontade de rir do “caralho, ele é um gostoso!”.
Abrindo um parêntese: que constrangimento são essas mesas compartilhadas depois que o superego da galera se afoga no álcool, não é? Além disso, se esse moleque fosse um padrãozinho mais velho, certeza que tinha posto a terapia do grito primal na sua lista. Pelo menos combinaria com os berros dessa declaração de amor à fórceps que ele deu pro bar inteiro. É claro que só você escutou o que acabei de pensar. Não sou nem besta de dizer coisas ruins assim, sem filtro e em voz alta, prum bando de gente desconhecida concluir outras coisas ruins a meu próprio respeito. E agora que você já ouviu meus pensamentos verdadeiramente ruins, deixe eu fechar logo o parêntese pra nada escapar.
“Quem foi que inventou que paciente não pode dar pro analista?! Que saco isso!”, continuou o padrãozinho psi com tesão ou o padrãozinho com tesão psi, não sei dizer o que vem primeiro. E ele tem razão, quem foi que inventou? Porque eu quero agradecer, e muito, àquele que deixou claro que bom não é e, com isso, me autorizou a estar aqui. Agradecer é pouco, o que ele fez foi aliviar essa praga de sentimento de culpa por ter vindo atrás desse merdinha, desse paciente histérico com voz de taquara rachada que o Pedro começou a atender já tem alguns meses.
Que é feio eu sei que é. Estou falando dele, do moleque, mas também de mim, correndo atrás dele pela terceira vez. Três vezes praticamente iguais. Ele chega no bar, eu chego logo depois; e vem com a mesma amiga, aquela com cara de espanto. Então tomam umas cervejas, depois umas cachaças e o fedelho começa a soltar as mesmas pérolas sobre o Pedro ser um gostoso e que ele quer é dar pro analista, e “dar muuuuito!” sempre com exclamação e esticando os “us”. De diferente só os desconhecidos com quem divide a mesa, além das caras que eles fazem, pois nem sempre acham graça do blá-blá-blá desse fedelho que urra. Eu também não.
Dar pro Pedro. Dar pro meu marido. Que não dá pra mim faz tempo e nunca toca no assunto. Anos já que ele vem deitar bem tarde, me dá um selinho-quase-beijo-na-testa, vira pro lado da janela e começa a ressonar. Sempre achei uma graça ele começar a ressonar assim que caia no sono depois da gente transar. Mas caia, pretérito imperfeito, melhor do que o futuro de um pretérito que desistiu de voltar.
Queria dizer agora que não sei direito o que estou fazendo aqui, desse jeito obsessivo até a medula atrás desse menino. Mas sei.
O rapaz e a amiga pediram a conta. Pedi a minha também. Parece que chamaram um Uber. Vou chamar um táxi, prefiro. Eles devem seguir até o Catete, das outras vezes ela ficou no Largo do Machado e entrou na estação do metrô. Ele costuma saltar um pouco mais adiante, sei até onde mora. Mas desta vez meu táxi vai pro outro lado. Vai lá pra casa, pra que eu diga de uma vez Pedro, não dá mais, que a esta unión de nosotros le hacía falta carne y deseo también, que o que me mobilizou de verdade nas últimas semanas foi perseguir um paciente teu, um menino insosso e histérico, e constatar esse resumo de mim foi de um desalento sem tamanho. Fiz isso com ansiedade e com raiva, bem consciente de que minha noção de ridículo ficou guardada na gaveta de cabeceira da nossa cama, mas nem liguei. Pra consumo externo pareceu ciúmes, quem diria, mas a categoria diagnóstica é outra, você sabe. Foi só um último espasmo do que já senti por você, Pedro, aquele último suspiro que o moribundo dá nos filmes, depois sua cabeça tomba pro lado, a amada passa a mão sobre os olhos do agora morto, as pálpebras dele magicamente se fecham, e as lágrimas de todos os coadjuvantes ao redor começam a rolar, aqueles clássicos dos anos cinquenta que gostávamos de ver domingo à tarde eram todos assim, lembra?
Pois quebre a lei, Pedro. Dê descarga na ética e transe logo com esse padrãozinho que morre de tesão por você. Vai dar errado, óbvio, não é você quem ele quer e nem é dele que você precisa pra voltar a ser gente, nós dois e a mala da tua analista lacaniana sabemos. Mas se pelo menos você sair um pouco dessa melancolia que te desbotou tanto, garanto que compensará uma parte dos custos dessa trepada, acredite em mim. Ah, antes disso tudo acontecer, faça a transferência. Em Reais, claro, não pense que foi um lapsus linguae, é chiste mesmo, ainda sei contar um. E abra bem a carteira porque o valor é o triplo, o adicional de insalubridade é bem alto. Ou você achou que uma supervisão minha sairia de graça?



certeza que reginaldo rossi terá uma música para quando essa história for concluída…