Arturo
Um conto. Um quê de autobiográfico, admito, mas um conto
O sujeito aí da foto é o Arturo Toscanini. Gosto dele, mais ainda por se chamar Arturo, nome de um velho amigo mexicano que, como o Toscanini, calhou de ser regente de orquestra, pena que ainda muito longe da fama do seu homônimo, mas que pelo menos é meu amigo enquanto o outro não é e nem podia, pois como todo mundo que entende de música clássica até menos do pouco que entendo está careca de saber, Toscanini morreu faz um tempão, só que ninguém sabe que Arturo, o meu amigo, além de seguir bem vivo ainda por cima ganha pontos comigo porque é tio de um ex-cunhado meu, por sinal não só ex-cunhado, mas psicanalista que toca oboé e é gente boa, só que um psicanalista oboísta gente boa que de vez em quando é meio chato, porque tirando os meus outros amigos psicanalistas que são gente boa e nada chatos e nem tampouco meus ex-cunhados, o que não falta são psicanalistas que só por vestir o modelito de psicanalista-mão-no-queixo que adora dizer “isso se remete a” ou "isso me faz questão” já são bem chatos, mas diferente deles, esse meu ex-cunhado de vez em quando meio chato leva vantagem por ser primo-irmão do Jaime, um psicólogo que não é psicanalista e que virou artista plástico e fez um doutorado em arte contemporânea em Barcelona, Barcelona que alguém me disse ser uma espécie de Rio de Janeiro que deu certo, mesmo que eu não saiba se concordo porque vi muito pouco de Barcelona e o pouco que vi nem foi na época do doutorado do Jaime, que esqueci de dizer que além de primo-irmão do meu ex-cunhado também é muito meu amigo, irmão mesmo, e só por esse fato dá para entender qual a vantagem que o meu ex-cunhado psicanalista e oboísta de vez em quando meio chato leva em relação à chatice dos outros psicanalistas que vestem o modelito de psicanalistas-mão-no-queixo, só não vão perder o fio da conversa porque é do Jaime que estou falando agora, o Jaime que continua meu amigo irmão apesar da gente não se ver faz um tempão, e que sendo primo-irmão do meu ex-cunhado também calha de ser sobrinho do Arturo, não do Toscanini, óbvio, porque quem chegou até aqui e entende de música clássica sabe que o Arturo que não é meu amigo não nasceu no México e sim na Itália, aliás não sei se vocês ouviram falar que uma vez o Toscanini foi vaiado no Rio de Janeiro, li nalgum canto que isso aconteceu em 1886, muitíssimo antes até do pai do Arturo mexicano que é meu amigo nascer, sendo que passados alguns minutos da tal vaia de 1886 esse Arturo que nasceu na Itália, que não conheci porque eu mesmo nasci muitos anos depois do próprio pai do Arturo meu amigo nascer, deu a volta por cima e em grande estilo, disso eu sei porque já disse que foi o que li nalgum canto, e ainda que muitos de vocês já saibam vou contar mesmo assim que a razão da volta por cima foi por conta da Aída que ele regeu de forma tão magnífica, mas tão magnífica que não teve jeito, o Rio de Janeiro, que já era metidíssimo naquela época, teve que engolir a vaia e aplaudir feito doido, acho que de um jeito bem mais louco do que o próprio Rio de Janeiro costuma aplaudir o pôr do sol lá no Arpoador e também mais adiante, no Posto Nove, onde duvido que o Arturo tenha estado, o Toscanini, é claro de novo, se bem que dizer que duvido talvez seja meio forte, melhor então dizer que suspeito, isso porque eu não comentei antes que o Arturo mexicano regente de orquestra e tio do Jaime e do psicanalista oboísta de vez em quando meio chato também esteve no Rio, e sei que não só ele mas os outros dois também, o Jaime e o psicanalista oboísta e que já contei que é meu ex-cunhado, e que todos os três viram o pôr do sol em Ipanema, não sei se no Arpoador ou lá do Nove, mas tenho certeza que aplaudiram, não uma certeza absoluta, é verdade, menos certeza ainda de que aplaudiram do mesmo jeito que eu aplaudo o outro Arturo, o Toscanini, cada vez que ouço as sinfonias 1 e 3 do Beethoven regidas por ele, mas posso dizer que o que sei de verdade é que toda esta história tem algo de pretexto, porque como já dei a entender assim que comecei toda esta conversa, o fato é que não sei quase nada de música clássica e nem de Beethoven e me deu uma preguiça danada de pesquisar e escrever qualquer coisa decente sobre eles, o Beethoven, a música clássica e o Arturo Toscanini, porque o que eu queria mesmo era pedir pra quem ficou com o meu velho CD das sinfonias 1 e 3 de Beethoven regidas décadas atrás por Arturo Toscanini que por favor me devolva, mesmo que eu não tenha mais nenhum tocador de CD pra poder ouvir, mas é que ando com vontade de tê-lo nas mãos por conta da lembrança boa dessa história toda, pode ser?
[Texto velho, eu sei, eu sei, mas gosto dele ainda, então tenha um pouco de paciência com este escriba, quem sabe até um pouco de dó também.]



mas tinha cd na época do arturo, o toscanini, não o seu amigo mexicano?
Hahaha, muito bom. (Não tá comigo.)