Mínimos
Quatro atendimentos que não, simplesmente não.
Daí que tempo de sobra, então oito episódios de uma minissérie ruim com uma Toni Collette redundantemente soberba, ainda que no papel da própria andorinha que não faz verão, pelo menos não desta vez.
Vamos ao capítulo oito, o último. Já está quase tudo resolvido, só mais alguns detalhes para arre(-e-)matar.
Laura/Jane entra numa loja de pianos e teclados. Um vendedor, o único que apareceu na cena, pergunta se pode ajudá-la. Ela responde indagando por algum Bösendorfer e ele diz que sim, que tem vários, e juntos vão para os fundos da loja. O vendedor para em frente a um deles, pergunta se ela quer e ela fala que sim, um pouquinho; e ele “o quanto quiser”, deixando-a sozinha. Ela se senta, suspira e começa a tocar minha ignorância — porque nos tempos que correm, com uma intensidade quase sem precedentes tudo gira em torno da gente, você há de concordar —, uma ignorância sobre música clássica e, neste caso, por um átimo — palavra usada em priscas eras, nem tanto eras, mas com certeza priscas —, uma ignorância infimamente menos ignorante, porque consegui identificar que Laura/Jane dedilhava Bach, só não sabia ainda que se tratava do Prelúdio em E Menor, BWV 855, arranjado por Alexander Siloti em B Menor. Tudo aprendido inda agorinha, depois de escutar primeiro uma interpretação de Grigory Sokolov, depois outra de Vitaly Pisarenko e mais uma, um vídeo meio cafona da Mirana Faiz.
Esse tanto de versões, encontrado naquele famigerado sítio de vídeos que até botão próprio tem no controle remoto da minha tevê, meio que estragou o que eu tinha pensado em escrever. Porque era pra ser mínimo e fazer valer o título. Era pra começar pela minissérie ruim com uma Toni Collette redundantemente soberba e que resolveu dedilhar um prelúdio de Bach, que eu não conhecia, prelúdio que amanheceu às 5h12 comigo e me fez pensar, de novo, no tanto de música clássica que ignoro nesta vida, por sinal a única vida que conheço, e também em pianos, muitos pianos que não caberiam num apartamento como o meu, fosse um Bösendorfer, um Yamaha, um C. Bechstein, um Steinway & Sons ou um Fazioli, as 5 melhores marcas de piano da atualidade segundo um blog que vi por aí e em quem resolvi acreditar hoje, e que antes dessa barafunda de informações que fui encontrando tudo vinha sendo mais simples, partindo do tempo inesperadamente disponível de uma quarta-feira, dali para os tais oito episódios de uma minissérie que eu já disse ser ruim e onde, perto do fim do último capítulo, a atriz principal dedilhou uma peça que parecia ser de Bach e que eu nunca ouvira, e que por culpa desse dedilhar Bach num Bösendorfer fui parar em Keith Jarrett, especificamente em seu Köln Concert, tocado em não sei que marca de piano em 1975 e cujo CD eu já tive, só não sei se era duplo,
mas pela foto que encontrei tenho a impressão de que não, só que o que me deixou curioso, ou mais do que isso, diria que encafifado, é que no fundo eu queria era contar sobre não saber como fui conhecer esse concerto, aliás nem como, nem quando, nem se por minha conta ou apresentado por alguém, e que por ter conhecimento de que foi gravado em 24 de janeiro de 1975, mesmo ano da primeira edição de O Tao da Física, do físico austríaco Fritjof Capra, um livro meio odara, flower power, que fez sucesso nos anos 80 do século passado, essa falta de lembrança se estendeu ao livro, ainda que por minha edição ser de 1984 e nela aparecer anotado meu nome e o ano de 1986, suspeito que o Köln Concert também tenha conhecido no México, o mesmo México onde me tornei outra pessoa, não melhor nem pior, apenas com memórias meio emboladas, algumas quase emboloradas, que me fazem acreditar que valeu a pena, que ainda vale a pena ter certas histórias, se não tanto pra contar, pelo menos pra (semi-)lembrar.




