Sinuca de bico (2)
Não é um conto
Faço porque quero. Faço porque posso. E gozo com isso. E mais quero fazer o que quero. Porque posso. Mas, mais do que um mais, sempre tem um mas. É só passar o tempo e ele aparece. E neste caso é o gozo, aquele inaugural, que não é mais o mesmo: sua intensidade e sabor não chegam nem perto. E sem mais gozar do jeito que quero com o que faço porque posso, sobrevém a frustração e o tédio.
Não há novidade nisso, é uma sequência para lá de comum, antiga como a roda. (Talvez mais disseminada, menos restrita a grupos privilegiados.) Mas há um problema, talvez tão comum quanto: qual tem sido a estratégia mais frequente para lidar com a questão? Respondo o que provavelmente você esteja cansado de saber: aumentar a dose, aumentar a frequência, "vestir" o objeto de desejo com outras roupagens, tornando-o (em tese) mais atraente, mesmo sem saber (ou sem querer saber) que o gozo almejado vem menos dele e mais do que posso fazer com ele.
Lamento dizer, mas o resultado, nas poucas vezes em que seguir positivo, será efêmero. E insistir nessa estratégia não mudará as coisas.
Curioso é ver como o narcisismo e o individualismo, tão incentivados (e mesmo cultuados) socialmente, têm piorado o quadro. Porque eles nos fazem tomar como singular uma busca que é comum, um modo de existir onde os outros quase sempre são objetos, poucas vezes outros como nós. E justamente por passarmos boa parte do tempo olhando o umbigo como se fosse o mundo, só nos damos conta de que também somos objetos para os outros quando o desejo e as atitudes deles para conosco nos afetam de maneira negativa. Aí a gente estrila, bate o pé, se descabela, impreca contra esse mundão injusto de Deus (ou sem deus nenhum, você escolhe), logo a gente que é tão (escreva aqui a maneira como você se percebe e que torna o que andam fazendo de ruim contigo uma baita sacanagem).
Dito isso tudo, o que fazer? Como mudar esse modo de ser tão antigo e ainda assim tão contemporâneo? (Sim, estou te perguntando. Ou você acha que eu teria uma bela, edificante e prazerosa resposta para te dar?)



perguntinha difícil de ser respondida...